top of page
Buscar

A Valsa do Tempo

  • Foto do escritor: TiagoJunqueira
    TiagoJunqueira
  • 24 de fev.
  • 3 min de leitura


Um dia chuvoso, flashes de luz cruzando seus olhos, buzinas… No semáforo, um palhaço, estilo Chaplin, equilibrando uma bola de cristal nos ombros, deslizando até a outra mão.

Vento forte, a chuva pausa… trovões… pássaros voam em revoada.

Uma rua agitada. Nas sacadas dos prédios, luzes se misturam, olhares se cruzam no horizonte. No céu, um arco-íris lindo, trazendo um fio de esperança nas pessoas que fazem questão de postar em suas redes sociais: “a presença de Deus” foi a frase mais vista.

Ao longe, lembranças… súplicas de nostalgia… olhares no infinito. O coração afogado em lágrimas. A golden hour é o momento mais assustador: sufocos, choros, gritos de desespero, vidas silenciadas na agonia de existir.

Uma mulher pega um despertador na mesa de cabeceira, joga em direção à janela e sussurra:

“a vida começa em câmera lenta e termina em disparada.”

Ela corre para a sacada, e o arco-íris não embeleza mais aquele horizonte. Uma gota de chuva cai em seu rosto e se mistura com suas lágrimas… faróis, buzinas e pessoas correndo lá embaixo, onde sua vista consegue alcançar.

Ela sussurra:

“a gente vive tudo correndo, até o que era pra ser vivido com calma.”

O telefone toca, daqueles aparelhos antigos. Ela fez questão de manter vivo o presente de sua mãe, porém ignora. Ele continua a tocar. Ela coloca sua música preferida: La Valse à Mille Temps, do dilacerante Jacques Brel.

O som do telefone se confunde com o tempo daquela canção tão pulsante. Ela grita. Coloca a música no modo repetir, no volume máximo, e sai girando pela sala de jantar, girando como o tempo, correndo em direção ao nada…

Um raio… as luzes se apagam. Escuridão, lágrimas, falta de ar, urgência, uma beleza angustiante. Lá fora, as buzinas não cessam, confusão no cruzamento daquelas ruas… Ela respira forte e tenta dançar no meio do caos, cantarolando aquela valsa cheia de compassos intensos.

Para em meio à escuridão e sussurra:

“o segredo não está em saber dançar, e sim em sentir cada intenção daqueles passos cheios de saudade…”

A luz volta. Ela olha para a mesa de jantar: as cadeiras estão vazias.

O telefone volta a tocar. Ela atende. Muitos ruídos. Não consegue entender o que a outra pessoa, do outro lado da linha, está falando. Só ouve, ao longe, os acordes da mesma valsa que, minutos atrás, marcavam seus passos.

Ela grita, um grito tão profundo que os carros freiam lá embaixo. Joga o telefone pela janela e sai correndo em direção às luzes e buzinas. A chuva está cada vez mais forte. Ela cantarola cada vez mais alto, dançando aquela valsa que outrora a fez tão feliz.

Um trovão. Ela sorri e pula na frente de um carro que vem em disparada… As pessoas correm em sua direção. Os semáforos começam a piscar sem parar, misturando as cores. As buzinas ficam mais intensas. As luzes dos prédios piscam na cadência dos semáforos e das buzinas.

Ela está caída no chão, com a respiração lenta. Os olhos estão cheios de lágrimas que a enxurrada insiste em levar.

Do carro que ela foi ao encontro desce o amor de sua vida. Ele vem correndo em sua direção. Depois de anos fora, olha para ela em desespero e diz:

“eu te liguei tanto há pouco… queria tanto voltar a dançar nossa valsa. Vim em sua direção… que pena que o tempo não perdoa nossas pausas…”

Ela olha bem no fundo dos olhos dele, suspira, sorri e fecha os olhos para sempre.

No som do carro, está tocando: Ne Me Quitte Pas.

 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page