Atravessia
- TiagoJunqueira

- 9 de abr.
- 1 min de leitura

Era quarta‑feira. O céu estava estrelado e uma brisa fresca batia em seu rosto.
Ela voltava de um jantar em família, na casa dos pais que moram no campo. A estrada de terra, empoeirada, deixava seu rastro atrás do carro. A música nostálgica tocava; ela sorria e seguia com o coração cheio de saudades.
Ao passar pela cidadezinha — pouco mais de quatro mil habitantes — onde viveu toda a infância e adolescência, sentiu o coração apertar ainda mais. Pela antiga ferrovia da pacata cidade, avistou um circo. Seus olhos brilharam, perdendo-se nos varais de lâmpadas da fachada.
De repente, palhaços, bailarinas, mágicos, músicos e anões saíram pelo portão lateral e começaram uma ciranda alegre. No som do carro, tocava “L'accordéoniste”, na voz de Edith Piaf. Ela aumentou o volume daquela canção tão triste e, ao mesmo tempo, empolgante, deixando-se contagiar pela alegria dos artistas forasteiros em sua cidade natal.
Ficou alguns minutos contemplando a cena. Olhou para o banco do passageiro: o esposo dormia profundamente, depois de algumas doses de Campari. Sua vontade era ir até os artistas, dançar com eles, tocar aquela alegria — mas seguiu viagem...
Seguiu em um vazio quase triste, questionando se sua estrada poderia ter sido outra. Carregava um arrependimento tênue: teria deixado sua alegria para viver uma fantasia?Não soube responder.
Depois de alguns quilômetros, chegou em casa. Enxugou as lágrimas, desligou o som, acordou o marido e entraram. Apagou as luzes. Deitou-se.



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