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Muito Longe de Mim

  • Foto do escritor: TiagoJunqueira
    TiagoJunqueira
  • 24 de fev.
  • 3 min de leitura


Era uma menina simpática. Tinha 13 anos, era amável e prestativa.

Tinha rosto de boneca de porcelana, olhos negros e grandes, boca rosada, e as bochechas pareciam maçãs. Lembrava uma pintura, daquelas bailarinas de Degas. Mas uma questão atormentava seu ser.

Era baixinha e gorda. Isso fazia com que sua vontade de viver fosse, aos poucos, se esgotando. Nada animava seus dias e, a cada novo passo, era como se carregasse um fardo do tamanho do mundo.

Sua mãe fazia de tudo para agradá-la, tentando fazê-la sorrir novamente. Mas, ao chegar à escola, o pesadelo recomeçava. Era motivo de chacota. Zombavam de sua aparência, e ela ia se isolando do mundo, sentindo-se um nada.

Certo dia, um menino da sala começou a conversar com ela. Interessou-se por sua vida, dividia alegrias e tristezas. A partir de então, os dois passaram a ser alvo de brincadeiras cruéis. Ainda assim, ele permanecia ao lado da menina. Dizia que o coração era como um cata-vento, um carrossel sem direção. Que não escolhia a quem amar. Que amava aquela menina de quem todos zombavam. Era feliz com ela, e nada no mundo o faria mudar de ideia.

Com isso, a menina foi se alegrando. Descobriu que alguém se importava com ela, apenas com ela, e estava disposto a enfrentar o mundo por sua felicidade. Assim, foi construindo autoconfiança e se permitindo viver as pequenas alegrias que a vida lhe oferecia.

Os dois cresceram. Descobriram que um nascera para o outro. Casaram-se e viveram felizes. Até que a moléstia voltou a reinar entre eles. Outra desgraça atravessou o caminho daquela mulher: seu único amor foi vítima de um câncer no esôfago e morreu três meses após o diagnóstico.

Ela perdeu novamente o chão. Sentia como se uma faca lhe atravessasse o peito, queimando como fogo, talhando o corpo inteiro e deixando cicatrizes profundas de um passado amargo. Desnorteada, caminhava pelas ruas, desesperada por respostas para seus questionamentos internos, respostas que nunca vinham.

À beira de um rio, encontrava sempre uma senhora que a cumprimentava, mas nunca se aproximava. Aquela figura despertava curiosidade, até que, certo dia, a menina-mulher se aproximou e perguntou quem era ela e de onde vinha.

A senhora respondeu apenas: Venho de muito longe de mim...

E foi embora, sem dizer mais nada.

Aquilo a deixou ainda mais atordoada. No dia seguinte, fez as mesmas perguntas, e a senhora respondeu com as mesmas palavras. Desta vez, porém, não partiu. Ficou ali, em silêncio, esperando.

Então, a menina-mulher disse: Longe é o lugar onde a gente pode viver de verdade. Onde não é preciso aprovação nem cobranças. Eu queria encontrar um lugar assim… Mas meus caminhos são só de pedras e espinhos.

A doce senhora sorriu e disse que tudo poderia ser diferente se ela quisesse. Pediu que voltasse no dia seguinte, pois juntas encontrariam esse lugar tão sonhado.

A menina ficou feliz. Começou a compreender o sentido da própria vida e acreditou que, no dia seguinte, tudo se resolveria.

No mesmo horário de sempre, ela chegou. Deu a mão à doce senhora e as duas subiram as escadas da ponte que ligava a cidade. Caminharam até o meio dela. Pararam. Uma olhou para a outra, e a senhora disse:

A sua felicidade depende só de você...

A menina sorriu, acariciou aquele rosto marcado pelo tempo, tirou os sapatos e pulou.

 
 
 

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